Cicatrizes
Era mais uma
noite de sábado chuvosa. A escuridão era silenciosa, se não fosse pelo som das
gotas caindo sob o telhado, nada mais se ouviria. Sempre achei a noite mais
poética do que o dia, a solidão que ela faz brotar no interior de nossos peitos
sempre me pareceu mais profunda. Talvez a solidão não seja algo tão ruim,
afinal.
Uma vez li
algo sobre “solitude”, um termo que usam para designar uma solidão que você prefere
sentir, que você se acostuma, que você tolera... por vezes, a prefere. Mas, por
que? Sempre achei que fôssemos feitos para a comunidade, para o mundo, para o
geral. Contudo, as multidões me assustam. E por que não o fariam? Pessoas
andando sem rumo, em busca do nada. Em busca do transitório, do efêmero e de
todos os sinônimos dessas palavras.
Efêmero. Essa palavra
me persegue há anos. Quando olho para trás e lembro dos dias de sol, dos dias
de praia e calor, do cheiro do mar e das pessoas amontoadas com odor de
protetor solar e suor excessivo causado pelas altas temperaturas trazidas pelo verão,
e lembro do sorriso brotando naqueles rostos, rostos desconhecidos que
provavelmente nunca mais verei em toda a minha vida. Efêmeros, momentos
passageiros.
O inverno
chega borrando todas essas imagens cheias de cor e despertando um sentimento
que, por ora, eu havia esquecido em minha mente: o de incapacidade.
Incapacidade de, talvez, fazer minha vida ser um eterno verão sorridente.
Incapacidade de amar diariamente. Incapacidade de aprender a lidar com a minha
própria dor.
Mas, ora, qual
o problema da dor? As feridas mais profundas são as que causam as cicatrizes
mais marcantes, entende? As mais visíveis. Como aquelas que temos em nossos
joelhos e olhamos às vezes e lembramos de tudo o que fazíamos, lembramos das
corridas e dos tombos, de todas as brincadeiras e do nosso coração cheio de
esperança. Nem toda cicatriz é ruim. Se ela existe, é por que você sobreviveu
aquilo. Criou anticorpos. A gente leva isso para a vida toda.
A gente está
sobrevivendo e isso é bom. Você tem a sorte de estar sentindo o odor que a
chuva deixa no ar, sorte de poder correr para a rua e sentir a água molhar seu
rosto, penetrando os seus poros e lavando a sua alma. Você pode sentir o calor,
o frio, o amor! Você pode amar. A chuva sempre passa. A solidão sempre acaba. O
verão sempre volta. Os cortes sempre cicatrizam. A vida continua. Somos efêmeros.


